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quarta-feira, 30 de março de 2011

Fresh Kills: aqui era o maior lixão do mundo

Nova York está mostrando ao mundo como é possível recuperar áreas degradadas pelo depósito de lixo a céu aberto.

Os moradores de Staten Island, o menos conhecido entre os cinco distritos de Nova York, testemunham uma impressionante mudança na paisagem desde o fechamento, em 2001, do lixão de Fresh Kills, até então o maior do planeta. Numa vasta área em que os montes de lixo chegavam a 50 metros altura equivalente à da Estátua da Liberdade -, está surgindo um aprazível parque com 890 hectares, quase o triplo do Central Park. Desde 1948, quando o local começou a ser usado como aterro, mais de 150 milhões de toneladas de detritos de todos os tipos foram depositados ali. No fim da década de 90, o aporte diário chegava a 25000 toneladas.

Entre as providências para transformar o purgatório em paraíso, foi preciso assegurar a estabilidade do terreno, estabelecer uma rede de canalização para dar vazão ao gás resultante da decomposição do lixo e instalar uma camada de plástico impermeável para confinar e extrair o chorume, líquido poluente produzido em processos de decomposição. Os técnicos vão acompanhar uma série de indicadores sobre a qualidade do ambiente por pelo menos três décadas. As medidas servirão para assegurar a saúde dos frequentadores do parque, que vão dispor de 65 quilômetros de trilhas, quadras esportivas e parques para as crianças. Além disso, as barcaças que carregavam o lixo pelos canais serão transformadas em jardins flutuantes, e os visitantes poderão passear de pedalinho ou caiaque. Haverá até uma torre para observação de pássaros, que voltaram gradualmente à região à medida que as montanhas de lixo foram desaparecendo. A abertura para o público está prevista para o fim de 2011.


Como a engenharia e o paisagismo estão transformando a montanha de detritos de Fresh Kills, em Nova York, o maior lixão do planeta, em um parque de 890 hectares, o que equivale a duas vezes a área da floresta da Tijuca, no Rio - VEJA INFOGRÁFICO

Em 2008, com a desativação total de Fresh Kills, o nada glorioso título de "o maior lixão do planeta" passou a ser disputado por diversos aterros, incluindo o brasileiro Jardim Gramacho, em Duque de Caxias (RJ), que recebe 7000 toneladas de lixo por dia, provenientes de toda a Baixada Fluminense e da cidade do Rio de Janeiro. Retratado no documentário Lixo Extraordinário, que conta o trabalho do artista plástico Vik Muniz com os catadores locais e é um dos pré-selecionados para concorrer ao Oscar da categoria, o Jardim Gramacho simboliza o tamanho do problema do lixo no Brasil, que produz 260 000 toneladas de lixo por dia - 1,5 quilo por habitante, o triplo da China. Embora 80% desses resíduos possam ser reaproveitados, o que também inclui o lixo orgânico, apenas 2% são reciclados ou destinados para compostagem. Nos Estados Unidos, esse índice é de 32%.

Na Europa, diversos países já ultrapassaram a marca de 50% de reaproveitamento. O verdadeiro maior lixão do mundo, no entanto, não está em terra e nem sequer foi planejado pelo homem. Trata-se do "Lixão do Pacífico", uma região a 1 500 quilômetros da costa, entre a Califórnia e o Havaí, com 1,2 milhão de quilômetros quadrados de plásticos e outros tipos de detrito. A área equivale a 15% do território brasileiro. Largados nas praias ou depositados no mar pelo sistema de drenagem das cidades, os dejetos são levados até lá por correntes que vêm tanto da América do Norte quanto da Ásia. Pesquisadores encontram com frequência pedaços de plástico no estômago dos peixes e aves da região. A imagem de uma tartaruga que teve o crescimento do casco limitado por uma argola de plástico percorreu o mundo como símbolo do descaso da humanidade com o lixo que produz.

A cidade que mais acumula dejetos é São Paulo. São 18 000 toneladas por dia, o equivalente a 1,6 quilo por habitante. Isso significa que, no espaço de uma vida, os 11 milhões de paulistanos vão produzir o suficiente para cobrir todo o município com uma camada de 1 metro de lixo - VEJA INFOGRÁFICO

Revista Veja , Maurício Oliveira

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O extraordinário impacto do lixo

Pode apostar que, quanto mais lixo produzimos, pior estamos nos alimentando, por Jairo Bouer

Na semana passada fui ver um filme que deveria ser exibido em todas as escolas do país! "Lixo Extraordinário", documentário que concorre ao Oscar 2011, mostra a vida dos catadores de material reciclável no aterro sanitário do Gramacho, um dos maiores do mundo, no Rio. Também mostra como a arte pode virar a realidade dessas pessoas de cabeça para baixo.

Quando a gente produz nosso lixo diário, dificilmente pensa no impacto que esses dejetos vão ter para o ambiente e para a vida de outras pessoas. Além de separar os recicláveis (o que já deveria ser uma prática regular em todos os cantos do planeta), a própria maneira como consumimos, produzimos lixo e nos livramos dele deveria ser revista.

É uma cadeia de produção assustadora! O que isso tem a ver com saúde? Tudo! Pode apostar que, quanto mais lixo produzimos, pior estamos nos alimentando!
Outro filme que me veio à cabeça quando vi "Lixo Extraordinário" foi o já clássico "Ilha das Flores" (1989), curta do diretor gaúcho Jorge Furtado que, contando a saga de um tomate, faz uma crítica ácida à nossa sociedade de consumo. Cheque aqui.

A questão ambiental ocupa cada vez mais espaço em nossas vidas. Água, energia, lixo e aquecimento global são temas que vamos ter de encarar. A ligação de tudo isso com nosso estilo de vida, nossa saúde e nosso comportamento não é uma discussão tão óbvia, mas é fundamental. Essa "ecologia" humana já é uma das bolas da vez!

Talvez o mais bonito desse filme seja justamente focar as pessoas, no impacto que o lixo produz em suas vidas, no resgate da sua auto-estima, no poder de compreensão do que é a arte e em como ela pode ser transformadora. Na semana passada, voando para o Rio encontrei um dos personagens (o Tião). Virei tiete! Como o cara é bacana! O lixo pode ser mesmo extraordinário!

Jairo Bouer é médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, com residência em psiquiatria no Instituto de Psiquiatria da USP. A partir do seu trabalho no Projeto Sexualidade do Hospital das Clínicas da USP (Prosex), virou referência no Brasil sobre saúde e comportamento do jovem. Além da prática de consultório, mantém programas em TV e rádio e colaborações em jornais, revistas e sites. Este artigo foi publicado originalmente no caderno Folhateen do Jornal Folha de S.Paulo.

Lixo Extraordinário

Sustentabilidade premiada no Oscar, desde 1947 Filmes sobre temas socioambientais levam, há mais de 60 anos, o Oscar de melhor documentário. Conheça um pouco desta história e torça para o brasileiro “Lixo Extraordinário”, que concorre este ano (ainda que a estatueta não venha para o Brasil, já que a diretora e o produtor são ingleses)


Para as gerações mais novas, o mais importante documentário sobre a questão socioambiental foiUma Verdade Inconveniente, que levou o Oscar da categoria em 2007. Não só o tema era momentoso - seu produtor, Al Gore, militou 20 anos no Congresso americano em favor da proteção da natureza e já havia sido vice-presidente dos Estados Unidos e candidato à sua presidência (vencido por George W. Bush, para azar do ambiente, e da humanidade). Neste ano, um brasileiro concorre ao prêmio. Ele é o brilhante e mundialmente conhecido artista plástico Vik Muniz, que concorre com Lixo Extraordinário (Waste Land). Tem grandes chances, mas se ganhar, a estatueta de Hollywood não deverá vir para o Brasil. Sua diretora, Lucy Walker, é inglesa. E o produtor, Angus Ainsley, também.

Para mostrar como os temas socioambientais não são uma preocupação recente, na telona, coletamos muitos dos ganhadores do “Oscar de Melhor Documentário” com temas que se encaixam no espírito do nosso movimento - Planeta Sustentável -, ou pelo menos os mais importantes deles.

Já em 1947, um documentário sobre a pobreza e a desigualdade na Europa pós Segunda Guerra era indicado ao Oscar, provocando fortes reações. Era O Mundo é Rico (The World is Rich), dirigido por Paul Rothka. O filme mostra a devastação no teatro principal da guerra e condena o excesso de consumo e os produtos de luxo transacionados no mercado negro, enquanto o povo era submetido a um severo racionamento de alimentos que, em alguns países, como a Inglaterra, se estenderia até o começo dos anos 1950. Mas há, no filme, uma ironia: ele promovia um ideal da FAO, agência da ONU para a agricultura e alimentos, de industrialização da agricultura para alimentar o mundo - a mesma FAO que, hoje, prega a agricultura sustentável e de pequenas propriedades. A agricultura em grande escala, como sabemos, resultou em imensos dano colaterais. Na época, porém, esta não era uma questão.

Logo no ano seguinte, um documentário sobre a natureza conseguia levar a estátua. Produzido pela MGM e pela marinha americana, A Terra Secreta (The Secret Land) documenta a maior expedição feita até então para explocar a Antártica. Dela participaram 13 navios, 23 aviões e cerca de 4700 homens, e a fotografia foi feita por diversos militares de todas as armas. Um de seus propósitos era explorar centenas de milhares de metros quadrados de terra não explorados e que ainda não haviam sido mapeados. A única preocupação sobre o ambiente, ou condições locais, foi avaliar se, nela, as forças dos EUA poderiam enfrentar um adversário com sucesso.

Já em 1949, o prêmio foi para Amanhecer em Udi (Day Break in Udi), dirigido por Terry Bishop. O filme retrata a Nigéria colonial, que passa por uma crise de identidade. Há um conflito entre pessoas progressistas e a liderança tradicional. Dois jovens professores africanos querem construir uma modernidade, um símbolo de modernização. O representante britânico dá seu aval, mas um nigeriano mais velho acredita que a maternidade seria uma afronta tanto para a tradição quanto para a cultura do vilarejo, e tenta persuadir pessoas a barrar a construção. Embora o hospital fosse desejável, o documentário tem algo de premonitório - de fato, três décadas mais tarde, a partir do início da globalização, culturas e tradições locais começariam a ser desconstruídas, em favor da construção de um ideal de homogeneidade - o da era do consumo.

Fonte:Planeta Sustentável